segunda-feira, 25 de novembro de 2013

UM OURIVES DAS PALAVRAS - TREM NOTURNO PARA LISBOA - LIVRO DO DESASSOSSEGO - CARTA A MEU PAI - O LOBO DA ESTEPE

art by CARLOS BG

Quem tem alma não tem calma (Fernando Pessoa)
Minha alma tem pressa (Mário de Andrade)



Todo argonauta tem uma sina:
"Decifra-me ou te devoro." - Édipo Rei, de Sófocles.


No livro, Trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier/Peter Bieri, e, da ficção da ficção, o mote e epifania do livro: Um ourives das palavras, de Amadeu Inácio de Almeida Prado. Duas obras distintas, lidas separadamente, uma dita o ritmo da outra, resultando um mosaico, intertextualidade e camadas entre os livros: O livro do desassossego - de Fernando Pessoa, Carta a meu pai - de Franz Kafka, O lobo da estepe – de Hermann Hesse

Decifrando o itinerário e intertextualidade do Trem noturno para Lisboa (com as obras citadas acima), retirei do Trem noturno para Lisboa os textos e todas referências contidas na obra de Um ourives das palavras, do suposto médico/escritor: Amadeu Inácio Almeida Prado. Separadamente os li, e daí a analogia com as obras: Livro do desassossego (Fernando Pessoa), Carta a meu pai (Franz Kafka) e O lobo da estepe (Hermann Hesse).

A colcha de retalhos/mosaico que se apresentou na obra: Trem noturno para Lisboa. Segue Gregorius para sua sina, ir a Lisboa, mas, antes de empreender uma viagem, necessitamos de um roteiro, um livro de notas e uma epifania, um mínimo de bagagem, já que não leva nenhuma, leva a si mesmo.

Das intertextualidades entre: (Trem noturno para Lisboa e o Livro do desassossego)

A personagem Gregorius, numa passagem narra o instante que resolve seguir um homem numa Rua da Baixa até o Bairro Alto, sua morada, observá-lo do outro lado da rua, ver suas atitudes, a luz que se acende e a “incerteza”.

Abaixo fragmento da obra: Livro do desassossego. Fernando Pessoa - Página 49 - Editora Brasiliense.

"Descendo hoje a Rua Nova do Almada (¹) reparei de repente
nas costas do homem que a descia adiante de mim.
Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de
um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava
uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no
chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que
trazia pela curva na mão direita.
Senti de repente uma coisa parecida com ternura por
esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum
vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família
que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele,
pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe
a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela
naturalidade animal daquelas costas vestidas.
Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde
vi estes pensamentos."


Abaixo fragmento da obra: Trem noturno para Lisboa, Pascal Mercier, página 70 – Editora Record

Agora o único homem que estava no bar além dele pagava a conta e saía. Com uma pressa súbita que nem ele próprio compreendeu, Gregorius também pagou e seguiu o homem. Era um homem idoso que puxava de uma perna e parava de vez em quando para descansar. Gregorius o seguiu mantendo uma grande distância até o Bairro Alto, até ele desaparecer atrás da porta de uma casa estreita e sórdida. Uma luz se acendeu no primeiro andar, a cortina se abriu e o homem estava na janela aberta, um cigarro na boca. A partir da escuridão protetora de uma porta, Gregorius olhou para dentro do apartamento iluminado. Um sofá com estofados de um tecido de ‘gobelin’ gasto. Duas poltronas que não combinavam. Uma cristaleira com louça e pequenas figuras de porcelana. Um crucifixo na parede. Nem um único livro. Como era ser esse homem?
Depois que o homem fechou a janela e puxou a cortina, Gregorius saiu do recuo. Ele perdera o rumo e entrou na primeira viela que descia. Nunca seguira ninguém daquela maneira, pensando em como seria viver aquela vida estranha em vez da própria. Era uma forma totalmente nova de curiosidade que despertara dentro dele, ela combinava com aquela nova forma de lucidez que ele experimentara na viagem de trem e com a qual desembarcara na Gare de Lyon em Paris, ontem, ou quando quer que tivesse acontecido.
De vez em quando, ele parava e olhava para a frente. Os textos antigos, o seus textos antigos eles também estavam plenos de personagens que viviam uma vida. Ler os textos e compreendê-los também sempre significara ler aquelas vidas e compreendê-las. Por que, então, agora tudo era tão novo quando ele lidava com o português nobre e aquele homem aleijado? Inseguro, ele caminhou pelos paralelepípedos úmidos da rua íngreme e respirou aliviado ao reconhecer a avenida da Liberdade.



“Descendo hoje a Rua Nova do Almada”. (Rua citada por “Pessoa”)  
Gregorius o seguiu mantendo uma grande distância até o Bairro Alto. (Bairro citado por “Mercier”)

Coincide o grau de interpretação e ótica na descrição de ambos autores. O homem que vai pela rua, sob os dois olhares. O primeiro olhar, “Pessoa”, o vê através da “janela das costas” e imagina sua suposta vida, faz seu papel de cronista/poeta. “Mercier” o vê pelas costas “sem uma janela”, o segue, e a distância descreve e contempla sua morada, pequena partícula de uma vida, (...o homem fechou a janela e puxou a cortina,...) sem o tom imaginário e indaga: Como era esse homem? 

Fernando Pessoa responde: Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano...

Mais adiante, o segundo olhar, Gregorius conclui: “Nunca seguira ninguém daquela maneira, pensando em como seria viver aquela vida estranha em vez da própria. Era uma forma totalmente nova de curiosidade...

Respirar e reconhecer a “Av. da Liberdade”.
Traçando os dois itinerários geográficos das obras, percebe-se – pelo mapa de Lisboa (²) -, que o “Pessoa” desce a Rua Nova da Almada (indo em direção a Baixa) e “Mercier” sobe a rua Nova da Almada (indo em direção ao Bairro Alto), cruzam-se ai, os textos e os homens.

Não trato a intertextualidade e as camadas do texto como um plágio, mas sim, como esses textos ficaram impregnados na obra de “Mercier”(trechos do Livro do desassossego de Fernando Pessoa). É público que “Mercier” o leu e nos deu a sua percepção.


Das intertextualidades entre: Um Ourives das palavras e Livro do desassossego.

Paralela ao Trem noturno para Lisboa,  há outra obra, Um ourives das palavras. Lê-la separadamente é um exercício diferente de lê-la em conjunto com o Trem noturno para Lisboa. Há um trabalho hercúleo de “Mercier” – para não fugir a uma citação grega. “Mercier” exerce uma carpintaria de excelência no texto Um ourives das palavras. Uma obra dentro de sua obra, diria até, literalmente, sair da gélida Berna para a abrasadora Lisboa.
Há aqui muito do Livro do desassossego. Reconstrói “Mercier”, com novas tintas, um novo heterônimo para Fernando Pessoa: Amadeu! Dá vida e alma a Amadeu, é nitidamente reflexivo, poético, com alma, vísceras, sangue e ossos, tal qual Fernando Pessoa, com uma qualidade a mais: Amadeu é um ser político, ao contrário de Fernando Pessoa e seus heterônimos que eram apolíticos.

Das Intertextualidades entre: Um ourives das palavras e Carta a meu pai  

(Mercier) vale-se da Carta a meu pai, de Kafka, utilizando o recurso de uma ‘Carta a meu pai’, porém de autoria de Amadeu.
Filho e pai em lados opostos. “Mercier” utiliza, quase Ipsis litteris, o conteúdo da obra de Kafka.   Um, o filho, pelo fim ditatorial de Salazar e toda jovialidade do incerto. O outro, Pai, curvado ao poder, e toda maturidade do incerto. A alegoria da doença de Bechterew, mal que o Pai padecia, posições políticas opostas, curvar-se além da doença, curvar-se ao poder ditatorial de Salazar, curvar-se às duais incertezas.
Amadeu toma a mão à pena e deita as tintas ao papel, a ‘Carta a seu pai’ já não é uma carta inédita. O início da Carta de Kafka e da Carta de Amadeu traz indelével o “temor”. Exatamente o mesmo início – traduzido no temor –, o acerto de contas com o passado, Filho e Pai são exímios esgrimistas, não combatem à moda antiga, como os gládios. A ideia é só ferir o adversário. Ferir até mesmo na ausência, ainda que não recebam as “Cartas”, terá o seu emissor o prazer e o deleite de tê-las enviado, ainda, que o receptor faça ouvidos moucos. Contrariando e alterando o dito popular: “palavras não tão loucas e ouvidos não tão moucos”, é regra entre os esgrimistas, só ferir. Amadeu não faz diferente de Kafka, não baixou a guarda. Tome a estocada.

Das intertextualidades entre: O lobo da Estepe e Trem noturno para Lisboa.
"É preciso, ainda, ter o caos em si mesmo para dar à luz a uma estrela cintilante." (Assim Falou Zaratustra - Friedrich Nietzsche)

Harry Haler, 50 anos de idade, personagem de O Lobo da estepe, de Hermann Hesse, traça seu destino, o acaso, as portas que supostamente se abrem a aqueles que estão em constante busca.
Gregorius, 60 anos de idade, personagem de O trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier, traça seu destino, o acaso, as portas que supostamente se abrem a aqueles que estão em constante busca.
O mesmo mote e epifania de Hesse e Mercier, lado a lado põem Harry (do Hesse) e Gregorius (do Mercier) na busca frenética de algo fora de nós, que justifique qualquer empreitada na vida, ousar, sair do lugar comum, provocar o espanto. Verter a vida por uma janela, buscar a explicação no outro, “outsider” de nós mesmos, não buscamos o caos, ele principia em nós e se encerra em nós. Lobos vestidos por uma fina camada de pele. As metáforas da racionalidade e da fantasia terão, como já disse³ , suas iscas.

Gregorius, companheiro desta viagem que empreendi contigo no mesmo vagão, dividimos os mesmos sentimentos, você foi verossímil.

O autor Peter Bieri (Pascal Mercier) capitaneou bem a nave, lançou velas ao mar, correu perigos, passou por tempestades,  na dúvida seguiu as estrelas,  aproveitou as calmarias e sabe que ‘navegar é preciso’ . Aguardamos “Le silence du monde avant les mots.”  - “O silêncio do mundo antes das palavras.”


¹ Grifos meus
² Vide Google maps trajeto de Gregorius desde a Rua Nova da Almada até Av. da Liberdade.
³ O lobo da estepe – neste blog



VALE A LEITURA.










segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA




MatragA




A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA
João Guimarães Rosa
Editora Nova Fronteira, 1986.

O Velho Rosa sorri ao ver o deleite que me proporcionou com a leitura de Matraga. Assim contado, tim-tim por tim-tim, sem tirar nem pôr, com toda paciência de acender o fogo, assentar-se, calar-se e ouvir a aqueles que somaram histórias, tal qual, dormir com os sonhos. Num átimo ¹.

O abismo do homem. Uma queda e seu percurso. O cadafalso da margem do abismo, o silêncio do vácuo da queda, por fim, o solo.
A primeira fala - após a queda – o murmúrio da dor. A memória e a dor nas entranhas, membros, tronco e cabeça.
Entre o cadafalso e a queda, chicoteado pelas memórias - o cavalo, o selim, a soberba, o suposto poder -, de encontro com o solo. Por baixo de seu próprio olhar, a cegueira de um mundo pequeno, e de um sertão ainda menor.
Pirambeira abaixo, cai o homem. Já não tem nada a sua vista, só um fundo poço de lembranças embaralhadas, não tem mais, sequer, as falácias do jogo de truco.
O sertão das Geraes, pintado com tintas de sua própria autoria, o inexplicável, a roda de sua ordem, os vermelhos indizíveis e suas variações.
Um preto, uma preta recebem em seu abismo um branco, anjo caído, não caiu do céu nem do inferno, mas de um -, (inferno definitivo) ² -.  Vale o instinto de sobrevivência a cuidar de um animal ferido, impotente para o abate e a caça.
Do modo simples ressurge o homem, tem as mãos na terra, não prevarica, come e bebe seu suor. Tem “pertencência” com um novo chão e o que está a sua volta, sente os pássaros, o parto da sementes, o esverdear do plantio, o maduro dos frutos. Tem pai e mãe, pretos.
Mas como tudo é provisório, céu e inferno vêm aos poucos, têm sua hora e vez, Matraga seguirá seu destino, ter sua vez e hora, nem que seja a porrete.
Assim, Matraga segue a eito, matar os piores males que lhe assolaram:  a ignorância e a injustiça. O homem se curará das duas, terá a sua hora e vez, mas, antes da sua hora, sepultará os seus males. Do mal para o bem e vice-versa, ou às vezes os dois, juntos e misturados.

Bem-vindos as Geraes.

Vale a leitura!

(¹) Palavra muito utilizada pelo Velho Rosa, de tão presente, deveria ser exclusiva do mestre.


(²) Fragmento de poema “Murilo Mendes. 



sábado, 2 de novembro de 2013

O LOBO DA ESTEPE - DER STEPPENWOLF

































Art by: Carlos BG

O lobo da estepe – Der steppenwolf
Hermann Hesse
Record, 1986 
Tradução: Ivo Barroso

 

 

 

Man muss noch Chaos in sich haben, um einen tanzenden Stern gebären zu können. (Thus spoke Zarathustra - Friedrich Nietzsche)

 
"É preciso, ainda, ter o caos em si mesmo para dar à luz a uma estrela cintilante." (Assim Falou Zaratustra - Friedrich Nietzsche)


Harry Haler o homem, sentado num degrau qualquer, observaria: Um cão asseado? Uma veste bem talhada? Um andar coeso?    

Harry Haler o lobo, com os pés na estepe, observaria: Uma presa fácil? Um céu entreaberto? Ouviria outros uivos?  Preveria a caos?
  
Há uma segunda porta a nossa espera, não é o caminho do céu, nem tampouco do inferno. Somos mais que uma soma, somos a essência de nós mesmos. Achar o sentido das coisas é fácil, difícil é achar-se no sentido nas coisas.
Uma porta, num momento qualquer, se abrirá e essa porta é uma decisão das tuas somas e das tuas essências, a opção deste ou daquele caminho.
Sede forte quando abrires essa porta, amanhã ela estará em outro ponto, não é o caos que buscamos, mesmo no caos há alguma ordem, portanto fique atento a porta. As metáforas da racionalidade e da fantasia terão suas iscas. Terão o mesmo grau de ofuscamento.
O resultado de uma busca será inevitavelmente a fábula humana, a razão e o sentimento terá, igualmente, um par de óculos a nos nortear ou a nos confundir. O caos dual - sentimento e razão -, ambos com regras, cada qual terá o seu preço, ou ficamos com o sentimento e o seu caos, ou ficamos com a razão e o seu caos.
O impasse diante do dual caminho. Já que lobos e homens coexistem, a tragédia será inevitável, o destino desses dois paralelos, os caos se juntam, coabitam, se enlaçam, debatem e concluem: Somos o caos cada qual com sua particularidade. 
Hesse é inconfundível, permeia nossa mente, conhece nossas entranhas, nos persegue como o “Alfa” da cadeia alimentar. Percebe-nos, e sabe, há mais de homens e lobos em nossas veias do que imaginamos.
Supomos um lobo, insone, a nossa espreita, nos conduzindo por uma estepe, atento aos abrigos, a camuflagem, a espera, ao bote, a fantasia, ao viés e as regras do caos dual.

O velho João Guimarães Rosa, traduzido para o alemão por Curt Meyer-Clason, em todas as suas ‘veredas’, nos daria uma saída que igualmente seria dúbia, um terceiro caminho, igualmente com seu caos, talvez a certeza de uma dúvida, seria esta, mais uma advertência do que uma saída.
Tenha no colete as cartas certas, jogue-as ao léu,  e siga as regras do caos.
Na dúvida, aprenda a rir. 

Bem-vindos à alcateia.

Vale a leitura! 



sábado, 30 de março de 2013

LIVRO DO DESASSOSSEGO









Livro do desassossego,
Fernando Pessoa. Brasiliense, 1976.







Inaugura"F.Pessoa" o cronista Bernardo Soares, um semi-heterônimo, que andava às voltas com contabilidades alheias.

Como um Deus do Olimpo, o "Pessoa" cronista.
No Livro do desassossego, talvez a obra com um maior número de referências geográficas. Lisboa do início do século XX. Descreve o autor, no seu trajeto diário, alguns hábitos, cenas comuns, pessoas comuns da vida cotidiana.

Não contente com a obra de um escritor,  de tantas e tantas referências e informações, todo ser vivente, quer e quer, sempre saber mais, não contentes querem-lhe a alma, querem seus passos, pinçam referências, freneticamente saem em busca do itinerário de sua vida.

No 'imaginário coletivo' de "Pessoa", já o julgamos um o ator, quando a obra transcende o homem, é hora de saber: 

Qual o nome de sua água de colônia? 
Qual marca de navalha lhe afeitava a barba? 
Como amarrava os sapatos? 
O dentifrício, qual o nome do boticário? 
A tinta da caneta? 
A medida do chapéu? 
O nome da lavadeira?
O motorneiro do elétrico? 
O grau das lentes dos óculos? 
O prato preferido?
A tasca mais reles que frequentou? 
Fez ou não xixi na Rua da Madalena?
Se guardava, ainda, o pijama riscado? 
No baú haveria um fundo falso? 
Quais os nomes dos moços de fretes -carregadores do baú -? 
Ia aos cafés para o café? 
Os amigos eram ou não de conveniências?  
Realmente criou a frase da Coca-Cola: estranha-se e entranha-se? Porque não quis falar com a Cecília? 
Qual livro Cecília lhe ofertou?
Será que leu Machado? Mário? Carlos? Aquele que disse que a vida não presta.

Sutileza de detalhes da vida cotidiana, quando veste a manta de cronista, suas lentes, ainda ofuscadas, são faróis  de deleites e sofreguidão. Carrega a caneta e o pensamento à mão, não dispõe de nada, além, do cenário, cujas vidas materializam-se na metafísica explicável de suas lentes. 
Seja trôpego, ereto, falso, seja verdadeiro, serão aos olhos do cronista - o simples -, como quer o nosso Velho Braga. Simples derramará palavras ao papel,   lhes pertencendo a partir de então. Terá cada 'facto'¹ cotidiano sob seu domínio e sentimento, retirará o turvo natural para lhe depurar a essência. Alquimia sem manual.

Não tardará em somar as horas, horas que por vezes pertencem a outros, furtado, furtará de outros, as horas e instantes de sua passagem, sem sabe-lo terão diante de si as lentes do cronista.
Nos dará em uma bandeja generosa outras vidas.
Furtar-lhes a vida, não mais pertencem a eles, que sequer sabem dela.        

De tão próximo, o queríamos nosso.

Vale a leitura.

¹ Em respeito ao fato português, terno para nós.

quinta-feira, 21 de março de 2013

CARTA A MEU PAI - BRIEF AN DEN VATER















  












CARTA A MEU PAI
Franz Kafka,
Nova Época Editorial, 1976.
Tradução: Osvaldo da Purificação







José Castello, em uma entrevista, relatou que certa ocasião um amigo se encontrava em um sebo/alfarrabista no Rio de Janeiro e encontrou o livro “Carta a meu pai”, seria comum encontrar um livro de Kafka em qualquer livraria, não fosse um único detalhe, aquele livro fora ofertado por José Castello ao seu próprio pai, cujo frontispício, figurava indelével, a respectiva dedicatória. A vida imita as coincidências, messe farta, da feliz coincidência. O amigo adquiriu o livro e o entrega ao remetente. Mas isso já é outra história. O acaso.

Na época das cartas, cartas longas, verdadeiro rol de emoções, na carga da caligrafia, na tinta e seus borrões. Quando não chegavam aos seus destinatários, eram, e ainda o são, barradas pelos ‘spams’ com seus respectivos motivos: Mudou-se, Endereço insuficiente, Não existe o número indicado, Desconhecido, Ausente, Falecido, Recusado, Ao remetente e Não procurado.


Quando voltavam ao remetente, imaginava-se o percurso de ida e de volta e os motivos da devolutiva, um "xis" tosco, sem identidade, assinalava a decepção do retorno. Bem, isso era tarefa do serviço postal.
Ainda hoje, há o serviço de "posta-restante" endereçada a uma determinada agência postal, onde permanece até ser reclamada pelo destinatário. O termo, por si só, tem contornos extremamente enigmáticos, "Posta-restante"!

Dito assim, posta-restante! O termo parece não ter significação real, mas ganha dimensão de um tratado de semiologia: Quem posta o restante? Deveria o destinatário retira-la e pagar o “restante”?

A carta de Kafka começa com uma indagação do pai: “Porque você sustenta que tem medo de mim?”.
Kafka não procurou o serviço postal para a entrega da "Carta a meu pai", fez de sua mãe a portadora da entrega. Esta, entende ser mais uma futilidade do filho ou temerosa do conteúdo, decide abri-la, não tem dúvidas, não deverá chegar ao seu destinatário e exerce seu mátrio poder. Não só abriu a carta, abriu ainda mais o abismo entre Pai e Filho.

Devolve-a, sem a devida anotação do motivo. Diante da devolução, Kafka aproveita para revisá-la novamente, seu destinatário nunca soube sequer de uma vírgula ali contida.

Ai senhores, quando a vida se parece com uma espécie de ficção merece virar uma peça literária, e, ninguém menos que os próprios - “vitimador e vitimado” - para lhes carregar ainda mais as tintas.
Urge esclarecer, Kafka não só revisa, como ao final do texto aplica a pá de cal ao “Pai”. Simula uma possível resposta do pai a sua carta, com toda carga de um Pai. O conteúdo é um rosário de “culpas”, poderia escrever ‘culpa’. Simplesmente culpa!

Mas quem escreve é Kafka, protagonista, sem plateia, monólogo escrito e interpretado pelo próprio. A revisão acrescenta-lhe outras culpas. Leitmotiv revisitado. Culpa é matéria densa, não há brecha para trégua, o corte é na jugular.   

Nas palavras de Kafka: “desconfiança do pai, autodesconfiança do filho”. Esse é o resultado de ambos. Daí o livro segue o seu caminho, da livraria do Rio de Janeiro, lido e relido, volta às mãos do José Castello, - via posta-restante, objeto perdido e encontrado - para a devida correção da dedicatória.
José Castello nos dá outro filho, o livro: Ribamar - Editora Bertrand Brasil, mas isso já é outra resenha.

Pais e filhos, uni-vos a messe é farta!

Vale a leitura.


  








sábado, 9 de março de 2013

TREM NOTURNO PARA LISBOA - NACHTZUG NACH LISSABON







TREM NOTURNO PARA LISBOA
Pascal Mercier/ Peter Bieri,
Record, 6ª edição, 2010
Tradução: Kristina Michahelles



No princípio eram as trevas e elas habitavam Berna, eis que um vento sombrio, seguido de uma lufada, impede o salto do anjo Gabriel de uma ponte, já sem os sapatos e sem asas. Este, transmite a boa nova: A língua portuguesa.

Um trem. Um bilhete. Um destino inusitado. Um acaso. Uma ideia na cabeça. Um trem para Lisboa.


Com esta epifania nos sugere o autor embarcar com seu herói para o inusitado, em busca de si mesmo, a um tempo que não lhe pertenceu, movido pelo mote do imaginário livro “Um ourives das palavras”, Amadeu Inácio de Almeida Prado – Editora Cedros Vermelhos, Lisboa, 1975. Cuja resenha encontra-se, também, neste Blog no link: Um ourives das palavras.


Os “livros” seguem em dois comboios, paralelamente e lentamente, como lentamente deve seguir o trem, permanecendo em constante movimento e se possível nunca parar. Lentamente, também, ocorrem as mutações, perceptíveis, as vezes e outras não, ao nosso herói Gregorius.

Tecnicamente e estruturalmente o livro é perfeito, coeso e verossímil, Marcier o constrói, amarrado as possíveis referências do enredo, fecha as possíveis indagações, pois as cita, tais como “O livro do desassossego” – Bernardo Soares – semi-heterônimo de Fernando Pessoa.  

  

O exercício que fiz, foi ler inicialmente “Trem noturno para Lisboa” e depois ler separadamente “Um ourives das palavras”. Lidos isoladamente têm-se uma percepção diferente, o primeiro escrito com tintas germânicas glaciais e o segundo escrito com tintas ibéricas viscerais. Proeza louvável. Como se um  semi-heterônimo de Peter Bieri o fizesse. 
Tintas essas, de percepções de mundos diferentes,  revelam personagens exaustos,  a impotência de ação diante do acaso a que estão destinados, a de serem os fiéis depositários de vidas alheias, vergados diante do passado político, como os portadores da doença de Bechterew. O peso de si e do coletivo. Não se sabe o que é pior:  o pessimismo ibérico ou  a frieza alpina. 


Por analogia, Gregorius tem como conselheiro um oftalmologista, além dos exames de refrações, este, sempre lhe indicava o caminho, até encontrar outro oftalmologista que lhe deu novos óculos a fim de ver, claramente, o que antes não via.

Nem sempre, um canivete e um relógio - ambos suíços, úteis e precisos -, têm utilidade, principalmente quando o problema a ser solucionado não carece de tais ferramentas.


O destino final Berna, a bordo do "Trem soturno para Berna", suscitará outro mote: “Le silence du monde avant les mots” - O silêncio do mundo antes das palavras -, nosso fiel escudeiro volta à Berna, com um conceito diferente da palavra 'glória' que uma vez dita em português não há igual.
Quer conhecer uma pessoa? Viaje com ela.


Bem-vindos a bordo. Vale a leitura.  

domingo, 3 de março de 2013

DENTRO DE UM MÊS, DENTRO DE UM ANO - DANS UN MOI DANS UN AN



1, 2, 3, 4, 5, 6, 7,........... 





DENTRO DE UM MÊS, DENTRO DE UM ANO
Françoise Sagan, Record, Sem referência ao ano de publicação*.





O cê-cedilha da Françoise. Justifica o nome da autora,"Françoise", é o "cê-cedilha" de uma narrativa sutil, subliminar, atenta, psicologicamente visceral. Submete as personagens à constantes dias nebulosos, ácidos, verdadeiros, desnudados, linearmente imprevisíveis e frágeis ao fio da navalha.
Sartre o fazia longamente, Françoise o faz em frases secas - próximo da linguagem teatral - sem prejuízo de compreensão, pura carpintaria, onde o significado de um sim ou de um não, ganha ecos de uma nave de catedral, reverbera em ossos, carne, sangue e mente.
Numa França desnudada, após uma década do final da II Guerra, um flash atual, com o conteúdo do passado, onde a confiança e o amor estão sujeitos às atemporalidades, não só por uma Guerra, mas a ulterior tinta humana.
Belíssima narrativa, faz fácil o seu ofício. Com "Ç".

Vale a leitura.





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

UM OURIVES DAS PALAVRAS


UM OURIVES DAS PALAVRAS
Amadeu Inácio de Almeida Prado,
Editora Cedros Vermelhos, Lisboa, 1975.


Caetano Veloso ensina a todos os amantes da língua portuguesa:

"Se você tem uma ideia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão"


(em alemão) "Wenn Sie eine tolle Idee haben,
Am besten ist es, einen Lied zu machen,
Es ist erwiesen, dass es nur möglich ist,
auf Deutsch Philosophieren " 



Sem a intenção de desmerecer "Trem noturno para Lisboa", de Pascal Mercier/Peter Bieri, - cuja resenha já postei também neste blog -, pedi ao amigo ilustrador Carlos BG uma capa para o livro "Um ourives das palavras", epifania e mote para uma suposta viagem a Lisboa.

Realizei o exercício contrário, após a leitura de Trem noturno para Lisboa, separei somente os textos do suposto médico/escritor Amadeu Inácio de Almeida Prado e segui seu itinerário, o livro mostrou-se um verdadeiro  mosaico com referências e/ou inspirações de autores já conhecidos, não trata-se de plágio, - penso -,  mas sim de inspiração,  há momentos de não saber se estamos lendo Carta a meu pai; de Franz Kafka, O livro do desassossego;  - do semi-heterônimo Bernardo Soares - de Fernando Pessoa, e O lobo da estepe; de Hermann Hesse. http://livros-que-li-e-reli.blogspot.com.br/2013/11/um-ourives-das-palavras-trem-noturno.html

Afinal as dores humanas são de todos, cada qual com sua particularidade,  delineadas em sentimentos semelhantes, logo, inspirações semelhantes.
Tem o livro uma pegada reflexiva, com um traço marcante de "Pessoa" em suas divagações, - de uma suposta afirmação para uma sequência de cinco ou seis indagações-, sem esgotar totalmente a prosa poética contemplativa da vida.

A culpa, a eterna culpa, de si, dos outros, do acaso - jamais do destino -eternamente perseguindo os sonhos dos homens, estão presentes na passagem da vida, paixões, convicções, amores das personagens, cujas vidas dão uma ópera-fado.

Pontuo uma passagem do livro;  em que Amadeu diante de uma montra/vitrine, contempla refletidos, a si e a outro homem. Uma montra/vitrine. Numa rua do Chiado. Estaturas, vestimentas, oxigênio e comoção enlaçam o lusco-fusco de seus reflexos.

Exercício digno de um poeta que espreita de uma janela, numa sobreloja de um sobrado,  a descrever a cena. Como a locação é no Chiado, não me vem outro senão o "Fernando Pessoa" a descrevê-la. Seria Amadeu o elo perdido entre os heterônimos de "Fernando Pessoa"?
Se assim o é, mérito é para o Pascal Mercier/Peter Bieri, que "fechou o cerco de Lisboa".

Vale a leitura.

* No filme "Trem noturno para Lisboa", não contempla nem 10% do livro, como sempre filmes não refletem a obra literária. Porém, vale a pena ver o filme e vice-versa.  

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

TRABALHOS E PAIXÕES DE BENITO PRADA - Galego da província de Ourense, que veio a Portugal ganhar a vida.











TRABALHOS E PAIXÕES DE BENITO PRADA
Fernando Assis Pacheco
Edições Asa,  5ª Edição, 1996


Ler para entender. O que se sabe dos galegos a não ser as frases de lugar comum;  <pariu a galega> ,< galegada>,< à galega>,< anda, galego>,etc. 
A saga do nosso personagem Benito Prada é o peso de toda uma nação que, ao longo de mais de 900 anos, não tinha uma geografia definida, uma nacionalidade. As fronteiras do país vizinho, Portugal, eram a continuidade de seu próprio território, já que a Espanha lhes havia virado as costas, impondo-lhes a língua espanhola. Porém, antes da Espanha a língua Galizia/Galícia.  

Pacheco, descendente de sangue da Galiza/Galícia, resgata os seres humanos por trás de seu percurso migratório desde a Galiza até Portugal. Essas migrações e seus trajetos estendiam-se por anos e anos até o retorno. 
Por vezes se depara com situações e fatos corriqueiros a todos que emigram, não se sabe ao certo se estamos falando de nós mesmos ou dos galegos, do ponto de vista territorial de Portugal; fala-se dos galegos, mas do ponto de vista territorial do Brasil e da América, fala-se de ambos, são, assim, vinha da mesma cepa. O cenário que encontram além-mar é igualmente cruel à Península Ibérica, marcada pela opressão, a miséria e as ditaduras de Franco e Salazar.

Nesse cenário
, o protagonista vive os dilemas de ganhar a vida, tentar viver a vida e a luta constante e seguir adiante, nos conturbados anos na primeira metade do século XX.  A obviedade tem nome e lugar, a Península Ibérica, inferno para uns e o céu para outros, cujo céu tem dono, já o inferno este pertence a todos. Benito tem sempre uma defesa a palavra: seja numa frase curta e direta, ou longa e reflexiva. Tem caráter e é feito de ossos, carne e sangue. 

Dois regimes: Portugal e Espanha, assinaram o Pacto Ibérico, não rivalizaram, toleraram, cooperaram sem que um
e o outro o saiba, são alunos da mesma cartilha, regimes de exceção, mão de ferro e freio. Resultado: o fascismo que perdurou até meados dos anos setenta.

Portugal outorgou o título de Doutor honoris causa, da Universidade de Coimbra, em Direito, a Franco, no ano de 1949, única vez que Franco saiu de território espanhol após a Guerra civil espanhola. 
Benito inquirido, pela PIDE, sobre um suposto atentado a Franco, o secreta relata-lhe a tentativa frustrada de outro galego.
Perguntado: - "O que me diz deste atentado ignóbil?"  Benito foi direto: -"Que falhou, caralho!" 

"Que o doutorassem em metralha.." - em metralha-, sugere Antonio Prada, filho de Benito Prada.

Vale o percurso do livro. 

Bem haja!   





Um fato histórico em 1961, talvez o mais emblemático de todos: "Operação Dulcineia" - o assalto ao paquete Santa Maria (de bandeira portuguesa) – rebatizado, durante a ocupação, de Santa Liberdade,  foi tomado por portugueses e galegos no Caribe, tendo como protagonistas o português Henrique Galvão - (ligado a Humberto Delgado) - e o galego Pepe Velo, vindo aportar no  Recife, onde receberam asilo político.